Em entrevista ao repórter Marcelo Pinho, Fernando Meligeni, diz que falta empenho às novas gerações.
GLOBOESPORTE.COM : O que falta para o Brasil ter mais tenistas entre os 50 do mundo?
Meligeni: É uma junção de muita coisa. Principalmente na molecada mais nova, falta um pouco mais de consciência, de mais trabalho mesmo. Temos de ter a clara idéia de que isso é um trabalho e é o que o cara vai fazer para o resto da vida. O brasileiro demora até demais para perceber isso.
GLOBOESPORTE.COM : Você acha que o juvenil brasileiro não tem essa noção? A que você atribui isso?
Meligeni: Poucos têm. É difícil falar, mas eu vejo pouca gente treinando tão duro. Até um tempo atrás, jogar tênis era show, massa. A única maneira de ser um profissional bom é treinando muito, abdicando das coisas. A gente não vê muita gente abdicando as coisas. Depois tem a falta de estrutura e tudo o mais. Acho que o brasileiro tem de sair mais do país. Ir e ficar mais tempo fora. Ficar meses e meses fora, como fazem os argentinos, os chilenos.
GLOBOESPORTE.COM : Mas isso não está relacionado à falta de estrutura?
Meligeni: É realmente difícil sair do lugar, porque muitos brasileiros não têm dinheiro. Mas você tem interclubes na Alemanha, quase na Europa inteira, campeonatos de dinheiro na França. O que acontece lá fora é que os caras saem, ficam jogando campeonatos pequenos, mas dão um pouco de dinheiro para seguir viajando. Isso eu falo de um garoto de 18, 19 anos, que não tem dinheiro para viajar. Ele vai, pega a mala e viaja, não para ficar uma semana. Isso é coisa para profissional que está com ranking 100. Os europeus, americanos e, principalmente, os argentinos, eles saem para ficar cinco meses. Joga interclube na Alemanha, depois joga um torneio na França que vai dar uns quinhentos dólares para viajar para outro torneio e gastar lá. E assim vai.
GLOBOESPORTE.COM : Você fez isso?
Meligeni: Eu não fiz porque tive a sorte de ter uma carreira em que meu me pai deu o primeiro apoio e eu começei a jogar bem. Não me custeava 100%, mas não dependia dele para tudo. E naquela época, tinha mais campeonato na América do Sul. Eu escuto os caras dizerem que não têm dinheiro para viajar. Eu concordo. É difícil para caramba, mas existe uma saída. Às vezes, a saída é a mais difícil. Implica ficar fora do Brasil cinco meses, longe da família, da namorada, da bagunça do carnaval. Tem pouca gente fazendo isso no juvenil. Tem que sair, ficar uns seis meses tomando porrada. E tem que perder mesmo, porque só assim que aprende. Na época que eu jogava, você via um (Alex) Corretja. Era um cara que jogava bem, mas vivia em todos os torneios, treinando o dia inteiro. Todos os espanhóis fazem isso. Os garotos estão em todos os torneio. Eu fiquei três meses seguidos na Europa, quatro meses jogando torneio sem parar. Na América do Sul, dormi com sete caras no mesmo quarto na Bolívia. Tem que estar na cabeça do jogador que a única forma de chegar lá é abdicar.
GLOBOESPORTE.COM : A ausência de Guga das quadras deixou os outros brasileiros sem referência?
Meligeni: Acho que a referência você tem que ter. O ídolo é bom porque você vê que dá para chegar lá. O Brasil perde pelo tamanho. As pessoas têm que ir até Florianópolis para poder treinar com o Guga. É difícil para o garoto ir ver. O valor do ídolo é o garoto poder olhar e ver que, se esse cara chegou, ele também pode. A diferença do Guga é que ele comeu saibro. Raspou a bunda na terra. Não adianta. Tem que ralar a bunda na terra mesmo. O Guga ficava o tempo inteiro na quadra treinando. A gente ficava o dia todo, dez horas. Eu quando era moleque, não saía, era obcecado por ser profissional. Não fazia quase nada. O tênis antes da gente era até mais complicado para chegar. Tinha muita gente que jogava muito tênis. Hoje é mais nivelado. Tem jogador 30 do mundo que, há cinco anos, você não imaginaria entre os 10. Você vê que dá para chegar. A diferença não é ter uma baita direita. É o cara estar vivendo o circuito o tempo inteiro e aproveitando sua chance. Tipo o (Nicolay) Davydenko. Eu joguei com ele várias vezes. Tinha jogo para 40, 50 do mundo e hoje ele está em sexto. Por quê? Ele joga 35 semanas por ano e quando vai para casa treina que nem um porco.
GLOBOESPORTE.COM : Você acha que estamos vivendo o pior momento do tênis dos últimos anos?
Meligeni: O brasileiro ficou com a impressão muito alta. O tênis era um esporte normal, com seus grandes resultados, com jogador entre os 30 do mundo, o Jaime, eu, e alguns nomes, que, em fases diferentes da carreira, estavam entre os 30. Thomaz Koch, Carlos Alberto Kirmayr, Cássio Mota, Luis Mattar, Jaime, eu e veio o Guga. De repente, veio um número um do mundo. Para mim e para o Guga era algo improvável num país com a estrutura do Brasil. Isso deixou o brasileiro achando que isso é normal. Agora, se o cara for dez do mundo é ruim, 40 então. Não vejo como o pior momento. É a realidade do tenis brasileiro, que teve um, dois grandes jogadores, que passaram do nível normal do tenis brasileiro.
GLOBOESPORTE.COM : O que você espera do tênis brasileiro pós-Guga?
Meligeni: Espero dias melhores. Não sei se vamos virar uma Argentina, que tem dez caras entre os dez do mundo. Só se os jogadores fizerem sua parte. 99% dos que chegaram ao topo no Brasil vieram com ajuda dos pais ou com patrocinadores. Não me lembro de ninguém chegar com ajuda da federação. É possivel chegar? É, porque a gente chegou. E uma demonstração para galera não colocar desculpa na estrutura.
GLOBOESPORTE.COM : Mudou alguma formação de jogadores depois do fenômeno Guga?
Meligeni: Não. Tanto que foi toda essa bagunça. O pior momento do tenis foi há dois anos com o boicote, com a queda do presidente. Com certeza, foi aquela baderna, com polícia entrando na CBT. Hoje a gente está se reerguendo.
GLOBOESPORTE.COM : Você já pensou em ser dirigente?
Meligeni: Não tem a mínima chance. Muita gente diz que eu levo jeito, mas eu não tenho cacoete para político. Sou mais do fazer do que do planejar ou falar. Eu ajudo dentro da quadra, sendo capitão da Copa Davis, fazendo campeonato juvenil, dentro da quadra com os garotos. Me sinto útil ajudando.
GLOBOESPORTE.COM : O que você espera para o seu futuro?
Meligeni: Minha agência de marketing, dentro do tênis, na televisão. Uma hora eu escolho um deles.
GLOBOESPORTE.COM : Você sente falta do circuito profissional?
Meligeni: Se for do circuito que precisa viajar 30 semanas por ano para treinar alguém, eu não sinto. Viajei muito. Como eu falei, eu raspei muito a bunda na terra. Agora, com 34, 35 anos, quero viver outras coisas, montar uma família. Para treinar alguém tem que viajar 30, 40 semanas por ano. Chega uma hora em que você diz que está na hora de dar uma sossegada. Daqui a um ano, dois, três anos, quem sabe.
GLOBOESPORTE.COM : Você descarta treinar alguém menos do que ser dirigente?
Meligeni: Com certeza. Dirigente não tem a menor chance. Não adianta nem colocar plaquinha na porta.
GLOBOESPORTE.COM : E você já recebeu algum convite para treinar algum tenista?
Meligeni: Já fui sondado, mas não vou falar nomes. Eu sei que se eu tivesse me mexido eu poderia pegar algum tenista, principalmente brasileiros. Se amanhã eu disser que estou disponível para viajar, eu treinaria alguém. Mas eu não dou nenhuma brecha. As pessoas sabem que eu vivo outro momento.
GLOBOESPORTE.COM : Qual sua expectativa para o próximo confronto da Copa Davis?
Meligeni: Acredito muito nos meninos. Davis é um momento diferente. Você tem que decidir. É para o seu país e você se prepara para um jogo. Vai ser uma pedreira. Os caras mandaram a gente para 2.800 m de altitude. E eles jogam muito bem na altura. O Nicollas (Lapenti) joga desde a minha época e ganhou vários torneios na altitude. Tem que ver como vão chegar os tenistas e fazer a melhor decisão.
fonte : GloboEsporte.com crédito: Marcelo Pinho
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